Rentabilidade da safrinha de milho

 

 

 

Rentabilidade da safrinha de milho

 

No balanço da safrinha de milho neste ano, a rentabilidade aumentou em todo o país

 

É fato conhecido por todos que se interessam pelo mercado de grãos de milho que o ano de 2012 foi especial para a segunda safra deste cereal, também conhecida como safrinha. Pela primeira vez, a produção desse período superou a colheita da safra verão.

Segundo o último levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) para a safra 2011/12, a produção brasileira de milho na segunda safra – cuja metodologia passou a considerar áreas plantadas em parte dos estados de Rondônia (RO), Tocantins (TO), Maranhão (MA), Piauí (PI), Bahia (BA), Alagoas (AL) e Sergipe (SE) – passou de 22,46 milhões de toneladas em 2011 para 38,7 milhões em 2012, superando a safra verão do ano em quase cinco milhões de toneladas.

Esse aumento decorreu do crescimento da área plantada e da produtividade que aumentaram, respectivamente, 23% e 40%. A produtividade, especificamente, passou de 3.641 para 5.095 kg/ha, um crescimento de quase uma tonelada e meia por hectare.

Os números de produção por si só são impressionantes. No entanto, com a safra de milho recorde de 72,7 milhões de toneladas em 2011/12 – 26,7% superior à do anterior –, havia expectativa de baixa nos preços do grão. Frente a tais previsões de queda, o imponderável aconteceu: a grande seca nos Estados Unidos fez os preços do milho explodirem no mercado internacional, enquanto os preços internos continuaram altos no Brasil.

É fácil concluir que a rara combinação entre a produção recorde (com altas produtividades) e os preços altos para o mercado de milho resultou em grandes lucros para os produtores. Diversas análises no decorrer do ano utilizaram a referida junção de fatores para enaltecer o ano excepcional para os produtores de milho, mas sem se aprofundar no exame dos ganhos efetivos de cada um deles.

 

A realidade

 

Tal investigação passa por uma série de dificuldades pela impossibilidade de obtenção de informações precisas relativas aos custos e preços recebidos pela produção de cada agricultor. Por outro lado, é possível fazer uma aproximação que possibilite dimensionar os ganhos do setor com a análise do aumento de produtividade, dos preços e do custo de produção sobre os lucros operacionais dos produtores nos estados do Paraná (PR) e do Mato Grosso (MT). Com isso, o lucro operacional consiste no resultado obtido após a dedução dos custos operacionais da receita líquida das vendas.

Apesar de serem os dois maiores estados produtores, as características do mercado de milho em cada localidade são distintas. O Paraná situa-se numa região consumidora de milho, pois as indústrias de aves e suínos concentram-se no Sul do país. Por outro lado, o Mato Grosso fica em uma região produtora, mas que não é grande consumidora.

O estado de MT consome menos de 20% do que produz, sendo que os produtores vendem grande parte da produção antecipadamente junto aos traders. Isso trava os preços num nível remunerador, mas eles não usufruem de altas inesperadas como a deste ano.

No Paraná, as negociações não costumam ocorrer de forma antecipada e os produtores normalmente vendem a sua produção para as cooperativas das quais fazem parte. Esses fatores, dentre outros, fazem com que exista uma diferença inter-regional dos preços do milho, sendo que no Paraná há a ocorrência de preços maiores do que os negociados no Mato Grosso.

 

Aumento de produtividade + rentabilidade

 

Outro ponto importante na análise se refere ao aumento de produtividade que não resulta, necessariamente, numa rentabilidade maior, uma vez que existe a questão do custo de produção.

A maior utilização de insumos faz com que os índices referentes ao custo de produção e produtividade sejam potencializados. Além disso, o preço é determinado, principalmente, pela oferta e pela demanda, sendo que, em algumas situações, o produtor pode optar por não ofertar a sua produção à espera de preços melhores.

Em geral, o crescimento da produção faz com que a oferta seja maior. Caso a demanda não acompanhe esses fatores, o resultado será a queda nos preços.

Entretanto, no esquema de negociação via contratos futuros, habitualmente utilizados no Mato Grosso, tal lógica não é observada necessariamente, pois depende das expectativas futuras no momento da venda antecipada. Apesar do grande aumento da oferta de milho no Brasil, a demanda externa aumentou proporcionalmente e o país vem atingindo níveis recordes de exportação. Feitas essas colocações, vejamos o que aconteceu nos dois referidos estados.

 

Receitas líquidas, custos de produção e lucros operacionais

 

Segundo dados da Conab, a produção de milho na safrinha do Mato Grosso passou de 7,25 milhões de toneladas para 15 milhões, um aumento de 107%. A produtividade cresceu 43,8%, índice decorrido principalmente de fatores climáticos e não necessariamente da intensificação de insumos e tecnologia, passando de 3.950 kg/ha (65,83 sacas/ha) para 5.680 kg/ha (94,67 sacas/ha).

Em termos de preço, boa parte da produção de milho na safrinha 2011 do Mato Grosso foi vendida antecipadamente para os traders em contratos pactuados entre janeiro e fevereiro de 2011, com um preço médio na casa dos R$ 18,00. Enquanto isso, 30,2% da safrinha de 2012 foram vendidos antecipadamente no ano passado, mais especificamente entre setembro e dezembro, sendo que até junho de 2012, 54,5% já haviam sido comercializados a um preço médio de R$ 18,50 a saca de 60 kg.

As comercializações posteriores ocorreram com os preços à vista. Ao final de agosto, 88,2% da produção já estavam vendidos, estabilizando-se nesse patamar, e no fechamento de outubro, a taxa de comercialização parou em 89,8%.

O curioso é que, no mesmo período de 2011, a taxa de comercialização estava em 96,6%. Há dois argumentos para isso: a safra 107% maior para ser vendida; e a não comercialização do milho, pois houve uma ligeira queda dos preços em setembro e em outubro – por esse motivo, os produtores têm esperado os preços melhores.

 

Aumento previsto

 

A produção de milho na safrinha do Paraná passou de 6,2 milhões de toneladas para 10,2 milhões de acordo com a previsão da Conab – um aumento de 64,5%. A produtividade cresceu 39%, passando de 3.610 kg/ha (60,17 sacas/ha) para 5.026 kg/ha (83,77 sacas/ha).

Assim como no Mato Grosso, tal aumento decorreu basicamente de fatores climáticos. Em relação aos preços de venda da safrinha de milho no Paraná, torna-se mais complexo determinar os ganhos dos produtores, pois não se sabe exatamente quando e por quanto cada um vendeu a sua produção, mesmo na média. Feita a colheita, os produtores entregam a produção nas cooperativas e recebem um determinado valor, próximo ao do mercado à vista.

Assim, como aproximação, consideremos que os preços obtidos pelos produtores do Paraná consistem na média dos preços à vista no período final da colheita e no período posterior a ela. Dado que a safrinha de 2012 começou sua colheita no final de julho, utilizemos a média dos preços à vista no decorrer dos meses de agosto e setembro, que ficou em R$ 26,37 a saca.

Segundo o levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA), a média dos custos operacionais de produção da saca de milho na safrinha de 2012 ficou em R$ 13,53 – valor ponderado pelas áreas das principais regiões produtoras de Mato Grosso. Ao considerar a produtividade de R$ 94,67 sacas/ha e o preço recebido de R$ 18,50 a saca de 60 kg, o faturamento por hectare foi de, aproximadamente, R$ 1.798,00, gerando um lucro operacional médio de R$ 470,51 por hectare.

Os produtores que não venderam antecipadamente para travar preços puderam usufruir da alta de valores posterior à quebra de safra norte-americana. As médias dos preços da saca de milho em julho e em agosto no Mato Grosso ficaram em R$ 19,16 e R$ 21,87, respectivamente.

Nos meses de setembro e outubro ocorreu uma ligeira queda na média dos preços para R$ 18,62. Assim, os produtores obtiveram aumentos no lucro operacional – cerca de R$ 532,99 em julho, R$ 789,55 em agosto e R$ 481,87 nos meses de setembro e outubro.

 

Levantamento das informações

 

No Paraná, uma das instituições que fazem o levantamento do custo de produção é o Departamento de Economia Rural da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (DERAL/SEAB). Segundo esse órgão, os custos operacionais de produção do milho na safrinha desse estado, em 2012, foram na faixa de R$ 19,68 a saca.

Assim, com o faturamento de R$ 2.209,00 por ha (produção média de 83,77 sacas/ha e vendida por R$ 26,37 a saca), obteve-se um lucro médio de R$ 560,42 por hectare. Cabe ressaltar que a grande diferença dos custos de produção da safrinha 2012, por saca, entre os estados do Paraná e do Mato Grosso se deveu, principalmente, ao aumento de produtividade constatado nesse último.

Os resultados da última safrinha se mostraram surpreendentemente lucrativos. No agregado, segundo a metodologia aqui adotada, o cultivo de milho no Mato Grosso gerou lucros que atingiram a marca de R$ 1,34 bilhão. No Paraná, não foi diferente: a situação dos produtores na safrinha também foi ótima, com quase R$ 1,14 bilhão de ganhos do setor.

 

E a próxima safra?

 

Os preços deste ano têm estimulado uma boa produção de milho no próximo ano agrícola, 2012/13, apesar da diminuição da área da safra verão, em decorrência dos altos preços da soja e da dependência de condições do clima.

A princípio, a dificuldade que se delineava acerca do escoamento da segunda safra de Mato Grosso foi resolvida com a quebra de safra nos Estados Unidos e os nossos maiores índices de exportação. No próximo ano, uma possível grande safra brasileira de milho deve ser acompanhada de uma produção recorde naquele país, cuja área plantada deve aumentar ainda mais.

Dessa maneira, no ano que vem deve ocorrer uma queda nos preços do milho no mercado externo, mas eles ainda permanecerão altos em relação aos níveis históricos. Assim, caso haja uma nova safra recorde no Brasil, ou no mesmo patamar da atual, podemos esperar menores retornos da cultura do milho no próximo ano agrícola que, ainda assim, são bem lucrativos aos produtores brasileiros.

(REVISTA CAMPO E NEGÓCIOS. Uberlãndia: , Ano X, n. 118 Dez. 2012.)

 

 

 

 

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